Histórico

Os caminhos tortuosos do preconceito e da discriminação possuem raízes históricas e culturais na humanidade. Em cada período histórico, a humanidade transmitiu a sua herança.

Apesar de sempre terem nascidos pessoas portadoras de deficiência em todas as culturas, etnias e níveis socioeconômicos e sociais. Os portadores de deficiência foram ou foram sacrificados ou excluídos do convívio humano ou considerados portadores de poderes sobrenaturais.

Em 1985, os pesquisadores Patton, Payne & Beirne_Smith, classificaram em nove períodos, desde a antiguidade,  as posturas e atitudes sócio culturuais da humanidade ante os portadores de deficiência mental:

1. Antiguidade - anterior aos anos 1700;

2. Emergência de um campo - de 1700 a 1860;

3. Desilusão - de 1860 a 1925;

4. Recuo – período de 1890 a 1925;

5. Movimento gradual – período de 1925 a 1950;

6. Redespertamento –período de 150 a 1960;

7. Notoriedade – período de 1960 a 1970;

8. Época de litígio; período de 1970 a 1980;

9. Ação e reação – período de 1980 até o presente.

Fundamentando esta tese encontramos nos anais filosóficos e teológicos  vários registros contraditórios:

 Nós matamos os cães danados, os touros ferozes e indomáveis, degolamos as ovelhas doentes com medo que infectem o rebanho, asfixiamos os recém-nascidos mal constituídos; mesmo as crianças, se forem débeis ou anormais, nós a afogamos: não se trata de ódio, mas da razão que nos convida a separar das partes sãs aquelas que podem corrompê-las” (Sêneca-poeta romano/4 A.C.)

(...) pelos pecados e erros cometidos pelos antepassados era atribuída a culpa pela deficiência mental (Santo  Agostinho/354-430 d.C.); (...) é uma espécie de demência natural, não é absolutamente um pecado.” (São Tomás de Aquino).

Em alguns lugares, os loucos, os considerados endemôniados, os bruxos, os criminosos, os leprosos e os portadores de deficiência, todos eram classificados da mesma forma na Idade Média.

Na Inglaterra do século XIII, os portadores de deficiência mental eram tutelados pelo rei, Felipe, o Belo. Tinham direitos a um curador para cuidar de seus  bens.  Em determinados lugares gozavam de proteção, por acreditarem de que  possuíam poderes sobrenaturais.

Esta ambigüidade de tratamento, de um lado a exclusão e do outro a expressão do poder de atingir o sobrenatural, explicaram exemplarmente a dificuldade que a humanidade sempre teve em aceitar e lidar com as diferenças.

No Renascimento, o deficiente mental passou a ser encarado de uma forma mais humana, mas não  natural. No século X VIII, no advento da ciência,  passou a ter um caráter patológico.

Questionou-se que os  mesmos eram receptadores das insuficiências humanas, e  foram ainda mais marcados pelo preconceito e a desvalorização.

Só a partir do século XVIII, quando o médico Itard procurou atender um menino selvagem encontrado nos bosques de Aveyron, na França, os primórdios da educação especial  se iniciaram.

O século XX foi marcado pela segregação. Na  procura da eugenia, a insensata procura da purezada raça,  os nazistas sacrificaram nos campos de concentração não só judeus.  Também seres humanos pertencentes a outras etnias, homossexuais e portadores de deficiência para que não gerassem outros iguais.

E hoje, como convivemos com as diferenças?  Não podemos nos esquecer que vivemos em um contexto sócio-cultural que estabeleceu padrões de normalidade, que apesar de reconhecer as diferenças não as admite. Sobreviver com limitações, em um mundo maniqueísta em que as pessoas que o compõe são rotuladas,  é muito difícil.

Principalmente, quando os valores vigentes exaltam a competência, a fortaleza, a rapidez, a  inteligência, se possível revestida de beleza física.

Infelizmente, a visão ainda é assistencialista, o portador de deficiência mental é visto  como aquele que precisa de ajuda e os que o atendem, mesmos os profissionais mais especializados e vocacionados para este trabalho , são considerados  beneméritos e caridosos.

Quando na verdade, os primeiros são pessoas que precisam, que seus direitos sejam assegurados e os profissionais  que os atendem e lhes dão sustentação. precisam que   os seus trabalhos sejam reconhecidos e fortalecidos.

Contudo alguns avanços já foram alcançados. Os movimentos ideológicos e políticos em prol das minorias já começam a frutificar. O conceito de deficiência está sofrendo uma modificação. A humanidade está começando a valorizar o potencial que o portador de deficiência mental pode desenvolver e está deixando de lado aquela velha idéia de generalizar as limitações.

A APAE de São João tem como meta a inclusão tanto social como escolar do portador de deficiência mental. Em seis anos, conseguimos incluir mais de 200 alunos, portadores de deficiência mental leve, nas classes regulares do Estado, a maioria já alfabetizada. 

Na estimulação precoce, estamos com índice considerado excelente de crianças, que já não precisam mais de nosso auxílio.  O nosso trabalho é de aumentar, cada vez mais, a inclusão e aceitação de nossos alunos em todos os segmentos da comunidade. Cada aluno que incluímos, significa mais uma vitória para o nosso trabalho.

A deficiência mental

Abrange todos os adultos e crianças que, em face de um desenvolvimento inadequado da inteligência, tem uma desvantagem significativa nas suas possibilidades de aprendizado e de adaptação à sociedade. É um problema multifatorial, que pode ter várias causas em sua origem: ambientais, sociais, doenças e acidentes genéticos” Associação Americana de Deficiência Mental.

Segundo a a Organização Mundial de Saúde (OMS), calcula-se que  5% da população do Terceiro Mundo possui algum tipo de deficiência. A deficiência mental, apesar de estar inclusa neste percentual, é classificada à parte. 

Quando esta deficiência é moderada ou severa, seu prognóstico é extremamente difícil, uma vez que não existe cura. Contudo, o trabalho com o portador de deficiente procura investir na estimulação de seu potencial não afetado e no trabalho em oficinas ocupacionais, para que a sua qualidade de vida seja adequada à comunidade onde convive.

Causas

Pré-natal: principalmente falta de assistência à gestante e desnutrição na gravidez. Alcoolismo, drogas, medicamentos, tabagismo e poluição ambiental. Doenças infecciosas contraídas pela mãe, tais como sífilis, rubéola e toxoplasmose. Alterações genéticas e alterações no número de cromossomos o que dá origem a uma série de síndromes, tais como: de Apert, Down, Klinefelter, Pallister-Killiam, Patou e muitas outras.

Primeiro mês de vida:  assistência de saúde inadequada e traumas de parto. Hipoxia ou anoxia - falta de oxigenação. prematuridade e baixo peso. Doenças como fenilcetonúria, que é detectada pelo teste do pezinho,  causam deficiência mental.

Pós-natal: Desnutrição na primeira infância ou seja falta de proteínas básicas na alimentação e carência de estimulação. Doenças infeciosas como meningite e sarampo e infestações por parasitas. Acidentes de trânsito, choque elétrico, afogamento, quedas, envenenamentos ocasionados por ingestão indevida de remédios, inseticidas ou produtos químicos..

Como detectar

Existem alguns exames que podem ser realizados na gestante para detectar alterações de cromossomos no feto. Os mais conhecidos são o aminiocentese e o vilo corial, capazes de constatar essas alterações a partir da décima semana. São exames caros, realizados apenas pela rede de medicina privada e que não podem ser recomendados para o País de forma preventiva, pois no Brasil o aborto é ilegal.

Nos países em que a interrupção voluntária da gravidez é contemplada pela legislação, os exames são recomendados para mulheres acima dos 35/40 anos. quando são constatadas síndromes - Down, Cri du Chat ou Pattau - o aborto é feito de forma oficial, com todas as garantias. Mas aí entram em questão, além dos aspectos médicos, princípios religiosos e filosóficos.

Graus de deficiência

Assim como há várias causas, também há vários graus de deficiência mental. Na área da educação se classifica como nível de habilidades. Apesar da polêmica que hoje provoca os seus resultados, os testes de Quociente de Inteligência ainda são os aceitos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que os definiu em 1976.  Dependendo do grau de comprometimento, eles são classificados em categorias:

1. Variação normal da inteligência (VNI) - os antigos limítrofes: QI entre 71 e 94. As dificuldades só são percebidas em idade escolar, em função de seguidas repetências. Apesar disso, conseguem concluir o primário. Têm uma vida adulta independente e podem desempenhar funções mais simples.

2. Leves.  QI entre 50 e 70. Atraso discreto no desenvolvimento neuropsico motor e dificuldades de aprendizado precocemente percebidas. Conseguem se alfabetizar com ensino especializado e, na vida adulta, tornam-se independentes quanto a atividades práticas. Irão encontrar dificuldade para entrar no mercado competitivo de trabalho.

3. Moderados QI entre 35 e 49. O atraso no desenvolvimento neuropsico-motor é precocemente notado pela família. Ainda bebês são encaminhados para clinicas de estimulação. Dificilmente conseguem se alfabetizar, adquirindo no máximo o que se chama de "leitura incidental" (memorização sem entendimento). Adultos, são independentes quanto a cuidados pessoais, mas têm um certo nível de dependência para as atividades da vida prática. Não conseguem trabalho competitivo, mas podem ser bastante produtivos nas "oficinas abrigadas de trabalho".

4. Severos QI entre 20 e 34. Atraso intenso. Não conseguem nem mesmo a "leitura incidental". Precisam de escolas especializadas para o desenvolvimento de auto cuidados e de qualquer independência nas atividades da vida prática. Ficam eternamente semidependentes, necessitando de supervisão constante. São pouco produtivos, podendo desenvolver atividades simples, com artesanato, por exemplo.

5. Profundos QI igual ou inferior a 19. Atraso muito intenso e, em geral, não é rara a associação de deficiências nesse caso. O trabalho precisa ser mais individualizado. Se realizado, particularmente, em clínicas ultra-especializadas sai com um custo elevado.

Em sua maioria, devido aos fatores sociais e ambientais brasileiros, a deficiência mental é conseqüência direta da má assistência médico-hospitalar e da ausência do mínimo de educação na população.

Ana Eugênia Zuany Barroso Pereira Biazzo 

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textos: Ana Eugênia Zuany B. P. Biazzo
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